ALIMENTANDO AS OVELHAS OU DIVERTINDO OS BODES
Uma Reflexão sobre a Missão da Igreja à Luz de Charles Haddon Spurgeon
Introdução
Ao longo da história da Igreja, poucos pregadores defenderam com tanta firmeza a centralidade da Palavra de Deus quanto Charles Haddon Spurgeon (1834–1892), conhecido como o “Príncipe dos Pregadores”. Pastor do Tabernáculo Batista Metropolitano, em Londres, Spurgeon dedicou seu ministério à exposição fiel das Escrituras, à evangelização e à formação de obreiros comprometidos com a verdade do Evangelho.
No célebre texto “Apascentando Ovelhas ou Entretendo Bodes?”, Spurgeon faz uma forte advertência contra a tendência de substituir a pregação bíblica por formas de entretenimento religioso. O presente estudo preserva a essência de seu pensamento, mostrando que a missão da Igreja não consiste em agradar ao mundo, mas em alimentar espiritualmente o povo de Deus por meio da fiel proclamação das Escrituras.
CAPÍTULO I
A MISSÃO DA IGREJA É APASCENTAR AS OVELHAS
Charles Haddon Spurgeon denunciou um fenômeno que já se tornava evidente em seu tempo: a tentativa de transformar a igreja em um espaço de entretenimento, utilizando recursos destinados mais a atrair multidões do que a formar verdadeiros discípulos de Cristo.
Segundo Spurgeon, esse processo ocorreu gradualmente. Primeiro, a igreja abandonou a pregação firme e doutrinária dos puritanos. Depois, suavizou sua mensagem para evitar confrontos. Em seguida, passou a tolerar práticas antes rejeitadas e, finalmente, incorporou elementos do mundo sob o argumento de evangelizar mais pessoas.
Para Spurgeon, essa mudança representa um grave desvio da missão estabelecida por Cristo.
As Escrituras são claras quanto ao propósito da Igreja:
“Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura.”
(Marcos 16.15)
Jesus não ordenou que seus discípulos entretivessem as multidões, mas que anunciassem o Evangelho com fidelidade.
Da mesma forma, o apóstolo Paulo descreve os ministérios concedidos por Cristo:
“E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres.”
(Efésios 4.11)
Spurgeon observa que, entre esses ministérios, não existe qualquer referência a pessoas encarregadas de promover entretenimento religioso.
O próprio ministério de Jesus confirma esse princípio. Cristo jamais adaptou Sua mensagem para agradar aos ouvintes. Suas palavras confrontavam o pecado, chamavam ao arrependimento e exigiam compromisso com o Reino de Deus.
Quando afirmou:
“Deixa aos mortos o sepultar os seus próprios mortos.”
(Lucas 9.60)
Jesus demonstrou que o discipulado exige seriedade, renúncia e prioridade absoluta ao chamado divino.
Embora profundamente compassivo para com os pecadores, Cristo nunca procurou conquistar pessoas por meio de espetáculos ou diversões. Seu método sempre foi a proclamação da verdade acompanhada pelo poder do Espírito Santo.
CAPÍTULO II
A PREGAÇÃO FIEL PRODUZ DISCÍPULOS; O ENTRETENIMENTO PRODUZ EXPECTADORES
Spurgeon também argumenta que o entretenimento religioso não apenas carece de fundamento bíblico, mas falha em produzir os resultados espirituais que promete.
Ao examinar o livro de Atos e as cartas apostólicas, percebe-se que a igreja primitiva enfrentou perseguições, prisões e sofrimento. Entretanto, sua resposta nunca foi substituir a mensagem da cruz por atividades destinadas apenas a agradar ao público.
Depois da prisão de Pedro e João, a igreja reuniu-se para orar pedindo ousadia para continuar anunciando a Palavra de Deus, e não criatividade para tornar o culto mais atraente.
Os apóstolos depositavam inteira confiança no poder do Evangelho.
Foi essa fidelidade que fez com que o cristianismo alcançasse o mundo conhecido da época.
Spurgeon conclui que a missão da Igreja consiste em alimentar espiritualmente as ovelhas de Cristo, conduzindo-as à maturidade por meio da sã doutrina e da vida de santidade.
Quando o entretenimento ocupa o lugar da exposição bíblica, surgem consequências preocupantes. Pessoas podem ser atraídas pelos eventos, mas nem sempre experimentam verdadeira conversão, arrependimento e transformação de vida.
O Novo Testamento enfatiza constantemente a necessidade de separação do pecado, santificação e crescimento espiritual.
Os apóstolos anunciaram um Evangelho que transformava vidas, e não apenas emoções momentâneas.
Por isso, Spurgeon afirma que a grande necessidade da Igreja continua sendo:
- uma pregação bíblica fiel;
- sólida formação doutrinária;
- profunda espiritualidade;
- devoção sincera;
- confiança absoluta no poder da Palavra de Deus.
Somente quando a doutrina é corretamente compreendida e vivida é que produz frutos permanentes na vida do cristão.
A igreja cresce verdadeiramente quando suas ovelhas são alimentadas com as Escrituras, fortalecidas pela oração e conduzidas à maturidade em Cristo.
Conclusão
A reflexão de Charles Haddon Spurgeon permanece extraordinariamente atual. Em um tempo marcado pela busca constante por novidades, experiências e entretenimento, sua mensagem recorda que a verdadeira missão da Igreja continua sendo anunciar fielmente o Evangelho de Jesus Cristo.
A Palavra de Deus continua sendo suficiente para salvar, transformar e edificar vidas. Nenhum recurso humano pode substituir a ação do Espírito Santo por meio das Escrituras.
O desafio da Igreja contemporânea não consiste em divertir os bodes, mas em alimentar as ovelhas do Senhor com a sã doutrina, conduzindo-as ao conhecimento de Cristo, ao arrependimento, à santidade e ao serviço fiel no Reino de Deus.
Como ensinou o próprio Senhor Jesus:
“Apascenta as minhas ovelhas.” (João 21.17)
Esta continua sendo a maior responsabilidade de todo pastor e de toda igreja comprometida com o Evangelho.
Bibliografia
BÍBLIA. Almeida Revista e Atualizada. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil.
SPURGEON, Charles Haddon. Apascentando Ovelhas ou Entretendo Bodes? Tradução de Walter Andrade Campelo. Biblioteca Charles Spurgeon. Acesso em: 29 jun. 2026.
SPURGEON, Charles Haddon. Lições aos Meus Alunos. São Paulo: PES.
SPURGEON, Charles Haddon. O Ganhador de Almas. São Paulo: PES.
STOTT, John. A Pregação: Ponte entre Dois Mundos. São Paulo: Vida.
Nota: A autoria deste texto é objeto de debate. Embora tradicionalmente atribuído a Charles Haddon Spurgeon, diversos pesquisadores sustentam que o texto foi originalmente escrito por Archibald G. Brown, discípulo e sucessor de Spurgeon. (GPT).
Nota do organizador: O texto foi dividido em parágrafos para facilitar a leitura, preservando-se o conteúdo da tradução.