MULHERES NA IGREJA: HISTÓRIA, SEXISMO E TRANSFORMAÇÕES
Introdução
A participação da mulher na História do Cristianismo constitui um dos temas mais debatidos da Teologia Contemporânea. Desde os tempos bíblicos, Deus chamou mulheres para exercerem importantes papéis espirituais, sociais e ministeriais. Miriam exerceu liderança em Israel (Êx 15.20-21), Débora julgou e governou a nação (Jz 4.4-5), Hulda foi reconhecida como profetisa (2Rs 22.14-20), Priscila ensinou ao lado de Áquila (At 18.24-26), Febe foi recomendada por Paulo como diaconisa (Rm 16.1-2), e as filhas de Filipe profetizavam (At 21.9). Esses exemplos demonstram que Deus jamais limitou sua ação ao gênero humano, mas distribui seus dons segundo a Sua vontade (1Co 12.11).
Entretanto, ao longo da História da Igreja, fatores culturais, sociais e institucionais contribuíram para restringir a atuação feminina em diversos ministérios. O debate não envolve apenas questões doutrinárias, mas também aspectos históricos, culturais e sociológicos que moldaram a organização eclesiástica.
Este capítulo procura analisar a presença do sexismo na história das Assembleias de Deus, especialmente durante a Convenção Geral de 1930, bem como refletir sobre a influência de Frida Maria Strandberg Vingren e os desafios enfrentados pelas mulheres no exercício dos seus dons ministeriais.
I. O SEXISMO E A INVISIBILIZAÇÃO DA MULHER NA IGREJA
O preconceito contra a mulher não surgiu no ambiente eclesiástico, mas acompanha a história das sociedades patriarcais. Na Igreja, entretanto, tal realidade tornou-se ainda mais delicada porque muitas vezes foi justificada por interpretações restritivas das Escrituras.
O sexismo consiste na discriminação baseada no sexo, produzindo relações de desigualdade e inferiorização. Nas Assembleias de Deus brasileiras, esse fenômeno manifestou-se de diversas maneiras, inclusive em costumes aparentemente simples, mas carregados de significado simbólico.
Menezes observa que se tornou comum apresentar um pastor acompanhado de “sua esposa”, omitindo completamente o nome da mulher, prática que revela uma invisibilidade institucional incompatível com a dignidade cristã (MENEZES, 2007, p. 100).
Segundo Yamabuchi (2009, p. 275), historicamente o poder religioso foi monopolizado pelos homens, que passaram a controlar a produção do discurso teológico, a interpretação oficial das Escrituras e a mediação entre o sagrado e o profano. Essa estrutura atribuiu às mulheres um “coeficiente simbólico negativo”, restringindo-lhes o acesso aos espaços de liderança.
Ruether (1993, p. 24) acrescenta que, durante séculos, a narrativa da queda de Eva foi utilizada para justificar a inferiorização feminina, transformando a mulher em verdadeiro “bode expiatório” da história do pecado. Tal interpretação, porém, contradiz o ensino bíblico de que homem e mulher foram igualmente criados à imagem de Deus (Gn 1.26-27) e igualmente alcançados pela redenção em Cristo (Gl 3.28).
Embora existam diferentes interpretações acerca do exercício pastoral feminino, é inegável que muitas limitações impostas às mulheres decorreram mais de tradições culturais do que propriamente da totalidade do ensino bíblico.
“Criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.” (Gn 1.27)
II. A CONVENÇÃO DE 1930 E A LIMITAÇÃO DO MINISTÉRIO FEMININO
Um dos episódios mais significativos da história das Assembleias de Deus ocorreu durante a Convenção Geral realizada em 1930.
Segundo Gunnar Vingren (1982, p. 168), diversos missionários e pastores demonstravam preocupação com a intensa participação ministerial de Frida Maria Strandberg Vingren. Na ausência de seu marido, Gunnar Vingren, Frida dirigia cultos, pregava, ensinava, escrevia artigos e exercia forte influência espiritual sobre a igreja.
Durante aquela Convenção foi aprovada uma declaração estabelecendo que as mulheres poderiam testemunhar, evangelizar e ensinar em circunstâncias especiais, porém não deveriam exercer a função pastoral, salvo em situações excepcionais fundamentadas na interpretação de Mateus 12.3-8 (VINGREN, 1982, p. 168).
Alencar (2010, p. 124) observa que a questão feminina tornou-se um dos principais assuntos debatidos naquela Convenção, evidenciando divergências internas quanto ao espaço da mulher no ministério.
A declaração oficial afirmava:
“As irmãs têm todo direito de participar na obra evangélica… Mas não se considera justo que uma irmã tenha a função de pastor de uma igreja…” (ALENCAR, 2010, p. 124).
Essa decisão marcou profundamente a identidade das Assembleias de Deus brasileiras, estabelecendo limites institucionais que permaneceriam por décadas.
É importante observar que o debate daquela época estava fortemente influenciado pelos costumes sociais do início do século XX, quando praticamente todas as instituições civis e religiosas eram dirigidas por homens.
As Escrituras, entretanto, registram inúmeras mulheres chamadas por Deus para exercer relevantes funções espirituais, como Débora (Jz 4.4-5), Hulda (2Rs 22.14), Ana (Lc 2.36-38), Priscila (At 18.26) e Febe (Rm 16.1-2), demonstrando que Deus distribui seus dons soberanamente.
III. FRIDA MARIA STRANDBERG VINGREN E SUA CONTRIBUIÇÃO HISTÓRICA
Frida Maria Strandberg Vingren permanece como uma das figuras femininas mais importantes da história do pentecostalismo brasileiro.
Segundo Alencar (2010, p. 124), Frida exercia uma influência extraordinária sobre a igreja. Pregava, evangelizava, visitava hospitais e presídios, escrevia artigos doutrinários, produzia poesias, compunha hinos, dirigia cultos e, quando necessário, conduzia a igreja na ausência do marido.
Sua atuação ultrapassava os padrões normalmente esperados das esposas dos missionários daquela época.
Em entrevista citada por Alencar (2010, p. 124), um antigo pastor afirmou que a Convenção de 1930 praticamente ocorreu em razão da influência exercida por Frida, revelando o impacto que sua liderança produzia entre missionários suecos e obreiros nacionais.
Alencar (2010, p. 109) também destaca que a Assembleia de Deus brasileira acabou adotando um modelo de liderança predominantemente masculina, diferentemente do pentecostalismo norte-americano, onde desde o início diversas mulheres exerceram funções de liderança.
Essa constatação não constitui necessariamente defesa do pastorado feminino, mas evidencia que Frida possuía preparo intelectual, capacidade ministerial e liderança reconhecida até mesmo por seus opositores.
Sua trajetória demonstra que os dons concedidos por Deus não podem ser medidos apenas pelos parâmetros culturais de determinada época.
O Novo Testamento ensina que o Espírito Santo distribui dons conforme Sua vontade (1Co 12.11), chamando homens e mulheres para servirem ao Reino de Deus segundo a vocação recebida.
Frida permanece como exemplo de dedicação, inteligência, coragem e fidelidade ao Evangelho, deixando um legado que continua despertando estudos, reflexões e debates na história do pentecostalismo brasileiro.
Dissertação de Mestrado. Mestre Expedito Darcy da Silva. p. 43,44.
Conclusão
A história da participação feminina na Igreja revela tensões entre tradição, cultura e interpretação bíblica. O fenômeno do sexismo não pode ser compreendido apenas como questão doutrinária, mas também como reflexo das estruturas sociais que marcaram diferentes períodos da história cristã.
A Convenção de 1930 representou um marco institucional nas Assembleias de Deus, estabelecendo limites ao exercício ministerial das mulheres. Todavia, a trajetória de Frida Maria Strandberg Vingren demonstra que Deus continua capacitando servas para desempenharem relevantes funções na expansão do Evangelho.
Independentemente das diferentes posições teológicas acerca do pastorado feminino, permanece incontestável que a Igreja necessita reconhecer, valorizar e incentivar os dons espirituais concedidos às mulheres, promovendo um ambiente de respeito, dignidade e cooperação no serviço cristão, conforme o ensino das Escrituras.
Referências Bibliográficas
ALENCAR, Gedeon Freire de. Assembleias de Deus: origem, implantação e militância (1911-1946). São Paulo: Arte Editorial, 2010.
BÍBLIA. Português. Bíblia Sagrada. Tradução de João Ferreira de Almeida. Revista e Atualizada. Barueri: Sociedade Bíblica do Brasil, 1995.
MENEZES, Esequias Soares de. Mulher, família e ministério. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.
RUETHER, Rosemary Radford. Sexismo e religião: rumo a uma teologia feminista. São Paulo: Paulinas, 1993.
VINGREN, Ivar (Org.). Diário do pioneiro Gunnar Vingren. Rio de Janeiro: CPAD, 1982.
YAMABUCHI, José. “Gênero, religião e poder: a participação feminina no cristianismo”. Revista de Estudos da Religião, 2009.
Dissertação de Mestrado. Mestre Expedito Darcy da Silva. p. 43,44.